O cultivo de cevada tem apresentado crescimento nos últimos anos no Brasil e a previsão para 2026 é de novo aumento de área que poderá chegar a 7,9% na Região Sul, principal polo de produção no País. O maior crescimento tem ocorrido no Paraná, onde o fomento da indústria de malte deverá manter a área acima dos 100 mil hectares. Para acompanhar o avanço da cevada, a Embrapa acaba de formalizar uma parceria com a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (FAPA). Os trabalhos da pesquisa focam no desenvolvimento de cultivares que somam rendimento, sanidade e qualidade de grãos para produção de malte cervejeiro.
O Brasil é o terceiro maior produtor de cerveja do mundo, com 17,8 milhões de toneladas/ano, logo atrás da China (35,9 milhões t/ano) e dos Estados Unidos (20 milhões t/ano), segundo a FAO (2023). O número de cervejarias chegou a 1.847 com mais de 60 mil marcas registradas no mercado brasileiro, conforme o Anuário da Cerveja. O consumo dos brasileiros, segundo o relatório global da Kirin Holdings, chegou a 69,9 litros de cerveja per capita ao ano.
O principal insumo da cerveja é o malte. A legislação brasileira prevê que, para ser classificada na categoria de cerveja, uma bebida precisa conter em sua formulação pelo menos 55% de malte de cevada.
Para abastecer a indústria cervejeira instalada no Brasil, são necessários 2 milhões de toneladas de malte, o que demandaria aproximadamente 2,3 milhões de toneladas de grãos de cevada. Apesar das oscilações ao longo dos anos, o Brasil tem registrado aumento de rendimento nas lavouras de cevada, com a safra 2025 resultando em alta produtividade (média brasileira de 4.358 kg/ha) e quase 600 mil toneladas de grãos. O déficit, tanto de malte quanto de grãos de cevada, é suprido pela importação (em 2025 foram importados 1,3 milhão de toneladas de malte e 933 mil toneladas de grãos de cevada, segundo o MDIC).
“O principal entrave para expansão da cevada cervejeira na Região Sul está no clima. O excesso de chuva na fase reprodutiva da cultura prejudica a qualidade dos grãos que podem não alcançar o padrão mínimo necessário para serem utilizados na malteação”, explica o pesquisador da Embrapa Trigo, Aloisio Vilarinho. Ele lembra que o cultivo da cevada está concentrado nos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, onde a colheita dos grãos ocorre no período da primavera, quando as mudanças no clima são desafiadoras para os cereais de inverno: “Ondas de calor intercalam com geadas tardias, chuvas sequenciais e todo tipo de intempéries que podem causar perdas nas lavouras ocorrem justamente na fase de pré-colheita da cevada”. Para minimizar as perdas, a pesquisa tem desenvolvido cultivares com maior tolerância a doenças, ao acamamento e à germinação na espiga em pré-colheita, sem perder atributos de qualidade cervejeira, como teor de proteínas entre 9 e 12%, grãos mais graúdos e com teor de micotoxinas abaixo do limite estabelecido pela legislação.
Contudo, o que determina o crescimento da área de cultivo é o fomento da indústria disposta a comprar a cevada produzida. No Brasil, estão em atividade cinco grandes maltarias, que produzem cerca de 960 mil toneladas de malte por ano. O crescimento da produção ocorre, geralmente, no entorno da indústria. A inauguração da Maltaria Campos Gerais, em Ponta Grossa/PR, está impactando no aumento da área de cultivo no Paraná. Segundo o Deral/PR, a previsão é de cultivo de 118,6 mil hectares nesta safra que está começando, a maior área dedicada à cultura na história do Estado.
No Brasil Central, a pesquisa também disponibiliza tecnologias para o cultivo de cevada sob irrigação através do melhoramento genético desenvolvido pela Embrapa Trigo e Embrapa Cerrados. A Embrapa estima uma área de 5 milhões de hectares com condições favoráveis ao cultivo de cevada, no inverno, sob irrigação – áreas com mais de 800 metros de altitude, já utilizadas em atividades agrícolas com culturas anuais, nos estados de GO, MG, SP e no DF. Cultivares, como a BRS Itanema, que produz 7 mil kg/por hectare, seriam alternativa para suprir rapidamente a demanda brasileira de cevada. Contudo, no ambiente tropical, a cevada compete com o cultivo de hortaliças nos pivôs, que garantem maior retorno econômico ao produtor da região.
Na avaliação do pesquisador Aloisio Vilarinho, a limitação para o crescimento da cevada irrigada não está apenas no setor produtivo, mas também na falta de indústrias na região: “Como não há matéria-prima, as maltarias não investem devido ao risco de depender basicamente de cevada importada para fabricar malte na região central do País”, explica o pesquisador, lembrando que, por outro lado, produzir cevada sem indústria instalada na região tropical implicaria em custos de logística para levar os grãos do Centro-Oeste até as maltarias no Sul ou no Sudeste, que tornam o processo caro e demorado.
O programa de melhoramento genético de cevada iniciou na Embrapa em 1976, resultando no desenvolvimento de 35 cultivares em cinco décadas. O trabalho na Embrapa sempre foi realizado em parceria com o setor privado, voltado a atender a demanda da indústria cervejeira, bem como com instituições de pesquisa, ensino e assistência técnica.
Uma destas parcerias acontece com a Fundação Agrária de Pesquisa Agropecuária (FAPA), instituída pela Cooperativa Agrária Agroindustrial, com sede em Guarapuava, PR. A FAPA também atua no melhoramento de cevada cervejeira, sendo parceira da Embrapa no desenvolvimento de novas cultivares que atendam aos melhores padrões de qualidade e rendimento de grãos para uso na malteação.
Visando suprir a demanda das maltarias (Agrária Malte e Maltaria Campos Gerais), foi estabelecido um acordo de cooperação técnica entre a FAPA e a Embrapa voltado ao desenvolvimento de cultivares de cevada para a Região Sul. De acordo com o pesquisador Aloisio Vilarinho, o programa de melhoramento genético da Embrapa Trigo está buscando cultivares com maior resistência à giberela (que resultem em menor teor de micotoxinas) e à germinação na espiga, fatores que mais comprometem a qualidade dos grãos na Região Sul em anos chuvosos.
“Essa parceria histórica com a Embrapa satisfaz nossa ambição de sempre buscar melhorar os atributos genéticos da cevada cervejeira. Nossos objetivos comuns passam pela busca de características que melhoram a produção de campo através dos atributos de resistência a fatores bióticos e abióticos, visando melhor produtividade e estabilidade, bem como qualidade industrial dos grãos para malte”, declarou Ivandro Bertan, pesquisador em melhoramento de cevada da FAPA.
O projeto base do acordo Embrapa-FAPA terá vigência até 2028, quando serão geradas quatro linhagens visando o lançamento de futuras cultivares de cevada cervejeira para a Região Sul.